Beatriz Roedel. Tecnologia do Blogger.

O menino da bola murcha

O garoto só quer uma bola para jogar futebol. A sua, murcha, rota e furada já não lhe serve. Ganhou de um outro menino durante uma aposta - nosso rapazinho aqui fez oito gols. O dono original da bola fez cinco. O tal rapazinho levou a bola - agora murcha e sem lá muita utilidade - e fim de papo.
Isso foi há dois anos e agora o brinquedo está sujo, rasgado, é flácido e nem redondo parece mais.
O garoto olha para os céus e reza pedindo uma bola, mas as nuvens parecem dizer que papai do céu está de férias por tempo indeterminado - fez o mundo em seis dias dias, descansou no sétimo e resolveu sair por aí fazendo um tour pelas estrelas e galáxias. O garotinho, quando pensa nessas coisas, quer ser deus. Inveja-o.
Outro dia, uma dona parou em frente ao menino e, com pena dele sozinho e com fome, deu a ele uma espécie de bolo - ele, aos nove anos (dos quais alguns passados em internatos públicos e outros em um orfanato), conseguia juntar as letras A-L-F-A-J-O-R.

O menino achou aquele doce muito gostoso e pensou que aquela dona deveria ter muito dinheiro, mas que devia ser abençoada mesmo assim.
E mesmo com a boca suja de merengue e o estômago tapeado, ele só queria ter amigos com quem dormir em um trapiche que nem no filme que ele viu antes de fugir do orfanato. Seu apelido - claro que assim como Pirulito, Sem Pernas e Gato ele também teria um - poderia ser Bola Murcha, ele não ligaria muito, só queria alguma coisa que o aquecesse e o deixasse feliz e absorvido, alguns amigos com quem aprontar e que pudessem fazer-lhe companhia durante às noites.

E não tem.
Na verdade, muito pelo contrário, falta-lhe até uma bola colorida e cheia.


(Ao bom gosto de J.I)

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Tic-tac, tic-tac

O relógio não me deixa esquecer que a cada segundo que a vida me dá eu me sinto mais sua, mais com você, mais sua amiga, mais íntima. A cada segundo que a vida me dá eu tenho mais desejo, mais vontade do seu beijo, mais sede dos livros que você me pede para ler, mais orgulho de ter gostado de filmes que você põe na sua lista de favoritos.

Eu tive uma chance com você, eu podia ter feito tudo direito, eu podia ter acertado... Eu estrago as coisas, tudo que eu construo na minha mente acaba virando pó...
Quero que você saiba que não desisti, que quero sempre ser sua âncora, quem sabe amiga, por vezes confidente, em algumas noites só mais um corpo quente que você quer abraçar simplesmente pela descarga hormonal ou pela companhia, escutarei seus monólogos sobre os grandes pensadores que nunca chegarei a conhecer, me contento em ser sua segunda ou trigésima opção - não me importa, eu só quero você, seguras suas mãos, beijar sua testa, sorrir para os seus comentários eloqüentes ou chorar junto quando você se sentir tão deprimido quanto eu normalmente me sinto.
Tic-tac, tic-tac.
Eternamente sua.

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...

Balanço a perna sem parar.

Mas estar ansiosa não vai trazer você para mim...

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Meias coloridas

Dias em que sofro tanto por não te ter que danço de meias pela casa e não me animo nem desanimo, só me sinto idiota por não saber dançar direito.


Fico em um conflito absurdo, sem saber se te quero na minha frente ou se desejo me esconder atrás dos meus cabelos quando me esbarrar com você na rua.

Por que você faz isso comigo? E como faz isso mesmo sem saber que faz?

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À flor

Prometo que não te encostarei um dedo (e não por falta de vontade), mas se um dia eu tiver a honra de dividir um quarto por uma noite com você, me sentirei o mais feliz e lisonjeado dos seres humanos. Obviamente eu não deixaria escapar algum romantismo inapropriado e tímido, como te levar café da manhã na cama (por sinal, o que você gostaria de comer? Uma omelete, talvez? O café puro e forte eu sei fazer)... E tudo isso porque ficaria feliz demais em te ver desabrochando lá pelo meio da manhã, com sono e com o cabelo descabelado.
A beleza não está onde menos se espera, ainda mais a sua, que é óbvia e transpira.
Você faz isso com as pessoas, lírio, e relendo tudo que já escrevi para você até agora me bateu um desespero e uma vontade de te colocar na minha cama e me deitar no colchão àbaixo. Provavelmente terei insônia imaginando as possibilidades, contando as camadas de tecidos que nos separam, pensando no que diabos fazer para você de café e qual é a bandeja mais bonita para te servir comida logo pela manhã.
Mas, se um dia eu tiver a honra de dividir um quarto por uma noite com você, seu cheiro (o perfume do Boticário, talvez, se você gostar desse tipo de sutileza), invadirá o ar.

E isso será bom...

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Para (outro) alguém que não vai ler

Da prateleira, tiro um livro do Nelson Rodrigues. Sei como esse autor faz você (e o resto da população) se sentir nauseado, chocado e ter vontade de fechar o livro e chorar. Leio palavra por palavra, com prazer, pensando que sua reação seria oposta, me envolvo na história porque quero te causar dor apreciando algo que não te faz bem.

Você não é meu, você nunca será meu e você também não serve para mim, mas me comprometi a te amar pelo que conheço de você e a te desejar as melhores coisas do mundo mesmo que à distância.
É em você que penso quando deito a cabeça no travesseiro e que penso que te quero tão bem, que quero sua felicidade, e escolho milhares de cores bonitas e mando elas em forma de luz para você. Os astros não cruzaram nossos destinos e você não acredita em superstições, mas é o meu jeito de te dizer que espero que você fique e esteja bem.
Na minha fantasia, minha luz colorida te aquece e envolve e você dorme como uma pedra e sonha com anjos; minha noite, no entanto, não é tão boa assim. Acordo de hora em hora e derramos lágrimas secretas dedicadas à você.
Tento ser forte, não ser egoísta - você está melhor assim, com ela na sua mente, mas você não vê que o que você sente por ela é exatamente o que eu sinto por você?
Acordo de manhã e alguém está tocando marchinhas de carnaval pelo Eixão. Penso em nós dois sorrindo, de mãos dadas, tentando sambar desajeitadamente enquanto você lembra do Rio de Janeiro e das ondas do mar.
Quero que você saiba que eu me entregaria por completo, de corpo e alma. Por que você não quer?


Well, I was sitting, waiting, wishing
You believed in superstitions
Then maybe you'd see the signs
But lord knows that this world is cruel
And I ain't the lord, no, I'm just a fool
Learning loving somebody
Don't make them love you

(Jack Johnson - Sitting Waiting Wishing)

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Uma constante

- Não entendo como você prefere capuccino à café expresso.
- Todo mundo fala isso...
- Perdoe minha falta de originalidade, então. O que você me conta?
- Sabe o que é? Outro dia eu estava pensando em como, no inglês, ser e estar é a mesma coisa.
- Perdão?
- Sim, o verbo "to be" pode significar tanto ser como estar, só depende do contexto. Só que isso não faz o menor sentido, porque "ser" e "estar" são coisas e verbos completamente diferentes. Porque o "ser" é plenitude - a pessoa, ou a coisa, ou o que quer que seja simplesmente é. É fixo, não permite mudanças, é algo que nunca vai se perder. O ser inclui o sentir, o viver, ter experiências, aprender. O existir da vida em seu auge; o ser é o que todos queremos para nossos quem sabe oitenta anos nesse planeta - só que nem todo mundo sabe dar o nome.
- E o estar?
- O estar é completamente diferente. O estar é um freqüente período de mutação; o estar pode acontecer em dias, semanas ou até em poucas horas. O estar pode passar de um pólo para outro em instantes ou pode ser diferente, pode ser um estar fixo, simplesmente não sentir, não ter emoções, não estar vivenciando. Por exemplo, os objetos não são. Eles estão.
- Dê exemplos.
- Certo. Primeiramente, o ser. Você sabe a Mia, aquela gata que mora com aquela senhora da lojinha de artesanatos? Pois então, acho que ela é o perfeito exemplo do ser. A Mia é um ser vivo lindo, sempre alegre, de rabo levantado, indo cumprimentar e roçar em quem quer que seja na loja. A Mia é, em toda sua plenitude. Gosta de brincar com os fios, mia alto, faz o maior escândalo quando não tem água ou ração. A dona da lojinha, toda vez que me vê, tem um caso dela para contar. Ela disse que toda vez que ela está chateada ou aos prantos, a Mia aparece e fica com ela, deitada, recebendo carinho e ronronando. A Mia, para mim, é a personficação do ser, sabe? Ela é real.
- E o estar?
- Seria muita presunção minha me colocar como definição de um verbo no dicionário?
- Claro que não, sua boba.
- Eu não sou. Eu nunca fui e, muito provavelmente, nunca serei nada. É claro que sou diferente de, por exemplo, uma torradeira - que tem uma utilidade bem fixa e se, por exemplo, ela cair no chão, ela não vai sentir dor ou chorar ou gritar. Talvez ela pare de funcionar, mas não ficaremos de luto nem nunca iremos conversar com uma torradeira, nunca vamos conhecer seus pensamentos, suas dores, seus medos nem nada porque eles não existem. A torradeira está de uma forma fixa, e eu estou sempre mudando. Passo da insegurança e da vergonha ao mais primordial desejo de suor, gritos e fluidos em questão de segundos, da mesma forma que passo do amor e do carinho sem precendentes para o ódio e a raiva, passo da depressão mais pura e da vontade de me esconder e nunca mais interagir com ninguém para o ser considerada a garota mais engraçada da mesa do bar. Passo da intensidade e da loucura de emoções a um estado de coração seco, vazio, que não tem outra função senão bombear sangue para o corpo, e que não dói, não se expande de felicidade, não bate de ansiedade e em que minha empatia desparece. Eu... Não consigo me entender. Tiro o fôlego até de mim mesma tentando me acompanhar nas minhas mudanças. Mas você entende, não entende?

- (...)

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