O garoto só quer uma bola para jogar futebol. A sua, murcha, rota e furada já não lhe serve. Ganhou de um outro menino durante uma aposta - nosso rapazinho aqui fez oito gols. O dono original da bola fez cinco. O tal rapazinho levou a bola - agora murcha e sem lá muita utilidade - e fim de papo.
Isso foi há dois anos e agora o brinquedo está sujo, rasgado, é flácido e nem redondo parece mais.
O garoto olha para os céus e reza pedindo uma bola, mas as nuvens parecem dizer que papai do céu está de férias por tempo indeterminado - fez o mundo em seis dias dias, descansou no sétimo e resolveu sair por aí fazendo um tour pelas estrelas e galáxias. O garotinho, quando pensa nessas coisas, quer ser deus. Inveja-o.
Outro dia, uma dona parou em frente ao menino e, com pena dele sozinho e com fome, deu a ele uma espécie de bolo - ele, aos nove anos (dos quais alguns passados em internatos públicos e outros em um orfanato), conseguia juntar as letras A-L-F-A-J-O-R.
E mesmo com a boca suja de merengue e o estômago tapeado, ele só queria ter amigos com quem dormir em um trapiche que nem no filme que ele viu antes de fugir do orfanato. Seu apelido - claro que assim como Pirulito, Sem Pernas e Gato ele também teria um - poderia ser Bola Murcha, ele não ligaria muito, só queria alguma coisa que o aquecesse e o deixasse feliz e absorvido, alguns amigos com quem aprontar e que pudessem fazer-lhe companhia durante às noites.
E não tem.
Na verdade, muito pelo contrário, falta-lhe até uma bola colorida e cheia.
(Ao bom gosto de J.I)










